Megafone!

A necessidade de realizar o Projeto Megafone surgiu naturalmente, porém, até chegar aos 110 programas, foi - e é - um trabalho árduo que já tem seis anos. A Encine iniciou suas ações em 1999 com curso que se propunha a possibilitar que jovens de baixa renda pudessem fazer arte por meio do vídeo, fotografia e, com isso, refletir um pouco sobre a sua realidade. Ou seja, era apenas um curso teórico com um fim nele mesmo, pois tudo ainda era muito embrionário, o próprio VHS ainda era uma coisa para poucos.

Ao longo do processo com os jovens, vimos que apenas apreender uma técnica pela técnica era uma ação vazia que não gerava mudanças reais na vida daqueles jovens - um processo muito parecido com a escola formal que pede que se decore para depois provar que decorou! A idéia que começou a nascer em 2002, foi a de criar um ambiente onde aqueles conhecimentos técnicos, que os jovens aprendiam, tivessem uma funcionalidade de processo, de meio, e não de fim nela mesma. Além disso, só aprender uma técnica, ter condições de fazer alguns vídeos ou fotos, não provocavam uma mudança de contexto no meio social daqueles jovens. Era sem dúvida uma coisa "legal" para eles, mas que não mudava as condições de poder e de status quo que já existia na vida daqueles jovens e da forma como a própria sociedade viam esses mesmos jovens.

A idéia então partiu de algumas simples perguntas: PORQUE ESSES JOVENS NÃO PODEM TER SUA VOZ ESCUTADA POR MILHARES DE PESSOAS, ASSIM COMO ACONTECE COM OS DETENTORES DO PODER ECONÔMICO? PORQUE NÃO TEMOS PROGRAMAS DE TELEVISÃO QUE EXPRESSEM A VOZ DIRETA DOS JOVENS, SEM INTERMEDIÁRIOS, E QUE ESSES JOVENS NÃO SEJAM UMA VISÃO ESTERIOTIPADA DE JOVEM? PORQUE A PRÓPRIA SOCIEDADE ORGANIZADA NÃO PODE FAZER UM PROGRAMA DE TELEVISÃO EM CANAL ABERTO E SER RECONHECIDA NELE E PENSAR SOBRE ESTA PRÓPRIA SOCIEDADE?

A idéia então era ampliar a voz do jovem para além de sua comunidade, de sua escola, de sua casa. Daí o MEGAFONE! Então, em maio de 2002, propusemos a TVC (televisão pública do Ceará) que abrisse um horário na sua grade para que colocássemos um programa de 30 minutos sobre o mundo jovem e feito pelos jovens da Encine. A TVC carecia de material produzido no próprio estado, além disso, a gestão (na época o presidente era Paulo Ernesto Serpa) era sensível a mudanças de paradigmas e a idéia era bastante ousada e inédita nos seus moldes. Um programa com a cara moderna e uma linguagem informal, solta e leve era algo incomum e destoava completamente (e ainda destoa!) do formalismo e rigorosidade estética dos programas de TVs comerciais. Fizemos seis programas em 2002 e nos achamos vitoriosos com todos os desafios e problemas que enfrentamos. Quebrar paradigmas era mais difícil do que imaginávamos!

Nos anos seguintes surgiam desafios novos que exigiam mudanças e novas soluções que iam sendo implantadas e superadas - DETALHE IMPORTANTE: essas mudanças e superações eram compartilhadas, processadas, implementadas e experimentadas por esses jovens que faziam e fazem o programa. O Megafone hoje é um programa da grade oficial da TVC, coordenado total e integralmente por jovens que se renovam periodicamente, estando atualmente na terceira turma de ARCOS - Arte Comunicadores Sociais.

Porém o programa, em si, é apenas a ponta de um iceberg que é visto semanalmente por mais de 24.000 domicílios só em Fortaleza. O programa é o produto físico de um grande processo que não termina nele. O PROJETO MEGAFONE é um processo amplo e elaborado de empoderamento social que começa com jovens de escolas públicas tendo a possibilidade de refletir sobre a sua realidade e os modos de intervenção nela, se apropriando para isso de metodologias e técnicas comunicacionais. Pela natural necessidade de interação social que o processo exige, junta-se ao projeto outros jovens, representantes de outras ONGs e projetos que pensam junto sobre essa mesma realidade. Assim criam um Conselho Editorial do Programa que pensa conjuntamente o quê o programa deve abordar e o quê deve ser pesquisado. As pesquisas levam a outros atores sociais que colocam a sua visão sobre o assunto abordado e mostram como agem sobre ele. Tudo é debatido por mais uma centenas de jovens em um espaço público da cidade (atualmente, nosso grande parceiro é o Centro Cultural Banco do Nordeste), numa grande e contemporânea ágora televisionada. Esta então é reproduzida para outras milhares de pessoas que refletem e tomam consciência coletivamente de um mesmo fato social da sua realidade.

Assim o PROJETO MEGAFONE é um espaço de criação de saberes coletivos e um laboratório de pesquisa para jovens intervirem de forma consciente em sua realidade e não serem meros espectadores de uma sociedade imutável. Sociedade esta que só se muda por ela própria, na medida em que ela se reconhece e reflete sobre ela mesma. Esse é o papel do Programa Megafone, fazer com que um grande número de pessoas reflitam e criem momentos de "pensar junto", um pensar diferente de uma lógica comercial, com olhares que propõem uma nova forma de sociabilidade e arranjo de vida mais humano e solidário.

Ao longo desse seis anos, já foi visibilizado mais de 200 escolas e ONGs, inspirado outra ONGs a realizarem seus programas e aberto caminho para veicularem na própria TVC. O Projeto é reconhecido como uma experiência bem sucedida no campo das TICs e único Programa do Norte/Nordeste a ter um Selo de Especialmente Recomendado para Crianças e Adolescentes.

Hoje temos claro que o mais importante no projeto são as mudanças experimentadas no processo, mudanças que se observam nos jovens do ARCOS, nos membros do Conselho, nos Fóruns Sociais, nas escolas, nos espectadores e nos próprios educadores da Encine. Todos estão em uma mudança constante, numa completa e saudável incompletude, bem lembrada por Paulo Freire. Sabemos que estas mudanças que o Projeto visa, são mudanças profundas e que demandam tempo (consideramos que estamos ainda no comecinho!) e muitos outros atores envolvidos e é esta a maior qualidade do Projeto Megafone, a capacidade de aglutinar pessoas para olharem juntas um amplo horizonte de possibilidades, entendendo que todo e qualquer espaço pode ser um espaço de saberes e construção de conhecimentos coletivos.

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